Desistência de Ratinho favorece vitória de Lula no primeiro turno

Eleição caminha para a disputa de um segundo turno já no primeiro, entre o presidente e o herdeiro do bolsonarismo19.03.2026 - Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante cerimônia de abertura da Caravana Federativa, no Expo Center Norte. São Paulo - SP.

Foto: Ricardo Stuckert / PR

A desistência do governador do Paraná, Ratinho Jr., da disputa presidencial redesenha o tabuleiro político de 2026 e fortalece de maneira decisiva o cenário de polarização que já se desenhava. Ao abrir mão de sua candidatura, justamente ele que era considerado o nome mais competitivo da chamada “terceira via”, o sistema político brasileiro parece admitir, mais uma vez, que a tentativa de escapar do confronto direto entre dois projetos antagônicos – o do Brasil soberano, de Lula, e o do Brasil alinhado ao trumpismo, de Flávio Bolsonaro – tem limites muito claros.

Ratinho representava, para setores relevantes do empresariado e da elite política, a esperança de um caminho alternativo entre o campo liderado pelo presidente Lula e o bolsonarismo reorganizado. Sua saída é um sintoma de que o chamado  “centro político brasileiro” segue incapaz de construir uma narrativa, um projeto e uma liderança com densidade nacional. Até porque quem realmente representa o centro, na dinâmica entre capital e trabalho, é o presidente Lula.

A nota divulgada por Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD, tenta manter viva a chama da alternativa. O partido reafirma sua confiança no governador e insiste que apresentará uma candidatura própria, definida como a “melhor via”, contrapondo-se à polarização que, segundo o texto, não contribui para o país. Kassab elogia a gestão de Ratinho, destacando avanços na educação, segurança pública e infraestrutura, e menciona os nomes de Eduardo Leite e Ronaldo Caiado, governadores do Rio Grande do Sul e de Goiás, como possíveis candidatos.

A verdade é que a eleição de 2026 caminha para ser, na prática, um segundo turno antecipado. De um lado, o presidente Lula, com sua base social consolidada e um legado político que dialoga com amplas parcelas da população – inclusive com o centro. De outro, o herdeiro do bolsonarismo carregará consigo o capital político, mas também a rejeição da extrema-direita.

Nesse contexto, a chamada “terceira via” se revela, mais uma vez, uma aspiração das elites econômicas e de parte da mídia — mas não uma demanda orgânica da sociedade. Falta-lhe enraizamento popular, identidade clara e, sobretudo, capacidade de mobilização. Não basta ser “menos radical” ou “mais equilibrado” no discurso: é preciso oferecer um projeto que dialogue com as angústias reais do eleitorado brasileiro.

O adiamento desse projeto parece inevitável. O projeto de uma alternativa fora do lulismo e do bolsonarismo não desaparece, mas é empurrado para 2030. Até lá, o Brasil seguirá vivendo o confronto entre dois modelos de país — um Brasil soberano, representado por Lula, e um Brasil alinhado à extrema-direita internacional, que, goste-se ou não, tem se mostrado o eixo estruturante da política nacional.

Leonardo Attuch é jornalista e editor-responsável pelo 247.

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