Ciro Nogueira busca apoio de Lula no Piauí e oferece afastar o PP de Flávio Bolsonaro

O presidente e o ex-ministro de Bolsonaro discutiram uma articulação eleitoral para o Senado, com possível neutralidade do PP na disputa presidencialCiro Nogueira e Lula

O presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), procurou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na antevéspera do Natal para discutir uma possível reaproximação política e negociar um acordo eleitoral no Piauí, estado governado pelo PT. O encontro ocorreu no dia 23 de dezembro, na Granja do Torto, em Brasília, e teve a participação do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), apontado como articulador da conversa, segundo a Folha de São Paulo.

Segundo relatos de participantes e de políticos envolvidos nas tratativas, a reunião — descrita como cordial — não foi registrada na agenda oficial de Lula e teria como objetivo reduzir tensões entre o presidente e o ex-ministro da Casa Civil do governo Jair Bolsonaro (PL). Ao final, de acordo com cinco pessoas ouvidas pela reportagem, Lula e Ciro chegaram a trocar gestos de afeto e sinalizações de reconciliação.

A movimentação teria sido motivada principalmente pela disputa ao Senado em 2026. Ciro Nogueira busca renovar seu mandato e tenta construir um cenário eleitoral que reduza obstáculos no estado, onde o PT mantém forte influência e onde haverá duas vagas em disputa. A proposta em negociação, conforme os relatos, envolveria o compromisso de Lula em apoiar enfaticamente apenas um candidato ao Senado: o senador Marcelo Castro (MDB). Com isso, a reeleição de Ciro ficaria mais viável, já que a segunda vaga poderia ser disputada com menos interferência direta do Planalto.

Um aliado de Nogueira confirmou o encontro e afirmou que o senador pretende que o governo federal e o PT não atrapalhem sua candidatura no Piauí. Em contrapartida, segundo essa versão, o presidente do PP sinalizaria neutralidade do partido na corrida presidencial, evitando uma aliança formal com o pré-candidato do PL, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), adversário direto de Lula. Conforme a apuração, essa neutralidade seria uma forma de reduzir o alinhamento do PP ao bolsonarismo em nível nacional.

De acordo com os relatos, durante a conversa com Lula, o senador destacou sua proximidade com Hugo Motta, chegando a descrevê-lo como uma espécie de filho político. Também teria afirmado que manteve lealdade a Bolsonaro até o fim, mas que foi um dos primeiros a reconhecer publicamente a vitória de Lula em 2022, em um momento em que setores do bolsonarismo resistiam a admitir a derrota.

Aliados do presidente relataram que Lula demonstra simpatia pela proposta e que considera Ciro Nogueira uma figura com quem mantém boa relação pessoal. Um interlocutor do presidente, favorável ao acordo, afirmou que Lula “gosta de Nogueira”, segundo a reportagem.

Apesar disso, o movimento é considerado delicado. Ainda segundo a apuração, Ciro demonstrou preocupação com o risco de vazamento da reunião e, procurado pelo jornal, chegou a negar que tenha conversado com Lula. Mesmo assim, aliados do senador confirmaram que ele vem intensificando articulações políticas de olho nas eleições.

O presidente estadual do PT no Piauí, Fábio Novo, afirmou desconhecer a conversa, mas fez críticas ao histórico de Ciro com o partido. “Não temos o direito de errar uma terceira vez”, disse.

A possibilidade de acordo também esbarra em articulações já existentes no estado. O PT costura uma chapa que inclui o deputado Júlio César (PSD) como pré-candidato ao Senado. Uma mudança nesse arranjo poderia desagradar o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, com quem Lula busca manter boa relação.

O cenário eleitoral no Piauí favorece candidatos com apoio oficial do Planalto. Em 2022, Lula obteve 76,8% dos votos válidos no segundo turno contra Bolsonaro no estado. Ainda assim, aliados do presidente reconhecem que Ciro mantém influência local significativa, com apoio de diversos prefeitos — inclusive petistas. Um exemplo citado pela reportagem é o prefeito de Cajueiro da Praia (PI), Felipe Ribeiro (PT), que declarou apoio ao senador.

Após a derrota do PT na disputa presidencial de 2018, porém, Ciro se aproximou do bolsonarismo e assumiu a Casa Civil em julho de 2021, conduzindo o PP para uma posição alinhada ao governo Bolsonaro. Mesmo após Bolsonaro deixar o Planalto, o senador manteve o partido próximo ao ex-presidente e chegou a defender a candidatura do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) à Presidência.

Com Tarcísio decidido a permanecer em São Paulo, Ciro agora avalia como lidar com o nome indicado por Bolsonaro para 2026: Flávio Bolsonaro, senador pelo Rio de Janeiro. Segundo aliados citados pela reportagem, o presidente do PP chegou a cogitar ser vice de Tarcísio e também foi lembrado como possível vice de Flávio, mas essa possibilidade teria perdido força.

A reportagem aponta ainda que, diante das divisões internas do partido — que inclui uma ala simpática ao governo Lula e até um ministro — o PP pode optar por não apoiar formalmente o filho de Bolsonaro e liberar seus filiados para se posicionarem livremente na eleição presidencial.

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