
Uma tragédia familiar abalou o Residencial Piancó, na zona rural de São Luís, na manhã desta segunda-feira (16). Uma mulher foi assassinada a golpes de faca dentro do próprio apartamento, em um crime com características de feminicídio. O principal suspeito é o ex-companheiro da vítima, que morreu após se lançar da janela do prédio logo depois do ataque. Ele chegou a ser socorrido, mas não resistiu. A Polícia aguarda laudos periciais para esclarecer as circunstâncias exatas da morte.
O caso reacende um alerta que insiste em se repetir: a violência contra a mulher, na maioria das vezes, não começa com o crime. Ela começa antes, de forma silenciosa, dentro de relacionamentos marcados por controle, ameaças e agressões progressivas.
Desde 2015, o feminicídio é tipificado no Código Penal brasileiro como o assassinato de mulher por razões da condição de sexo feminino, especialmente em contextos de violência doméstica e familiar. Em grande parte dos casos registrados no país, o autor é companheiro ou ex-companheiro da vítima. O término do relacionamento, segundo especialistas, é um dos momentos de maior risco.
Antes da agressão fatal, geralmente há sinais. A violência psicológica costuma ser a primeira etapa: controle excessivo sobre roupas e amizades, isolamento da família, ciúmes obsessivos, humilhações constantes e ameaças veladas. Com o tempo, o ciclo pode evoluir para agressões físicas, como empurrões, tapas e socos. Em situações mais graves, surgem ameaças de morte, perseguições e descumprimento de medidas protetivas.
O chamado ciclo da violência é marcado por três fases recorrentes: tensão crescente, explosão e arrependimento. Após a agressão, o agressor promete mudar, pede desculpas e demonstra afeto, criando uma falsa sensação de segurança. Em muitos casos, a repetição desse ciclo aumenta a intensidade das agressões e pode culminar no feminicídio.
Muitas mulheres não denunciam por medo, dependência financeira, preocupação com os filhos ou falta de rede de apoio. A violência doméstica não se limita à agressão física; ela atinge a autoestima, a autonomia e a capacidade de reação da vítima.
Diante de qualquer sinal de violência, a orientação é buscar ajuda. A Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 funciona 24 horas por dia, de forma gratuita e anônima, oferecendo orientação e encaminhamento. Em situações de emergência, a Polícia Militar deve ser acionada pelo 190. A vítima também pode solicitar medida protetiva em delegacias ou por meio da Defensoria Pública, garantindo o afastamento imediato do agressor.
A sociedade também tem papel fundamental. Amigos, vizinhos e familiares devem estar atentos a mudanças bruscas de comportamento, relatos de ameaças e isolamento social. Ouvir sem julgar, acreditar na vítima e oferecer apoio concreto podem fazer diferença. Violência doméstica não é “problema de casal”; é crime.
Cada caso de feminicídio deixa filhos órfãos, famílias devastadas e comunidades marcadas pelo trauma. Transformar a tragédia em conscientização é uma forma de romper o ciclo.
O crime registrado no Residencial Piancó não pode ser reduzido a mais um número. Ele expõe uma realidade que exige vigilância, informação e ação coletiva. Reconhecer os sinais, denunciar e apoiar vítimas pode ser a diferença entre a vida e a morte.

