O debate que criou Braide agora assusta Braide?

Dias atrás, o candidato ao governo do Maranhão, Eduardo Braide (PSD), fez uma suposta reclamação de não ser convidado para entrevistas em rádios no interior.

A reclamação tem certo fundamento, mas esbarra na contradição do próprio relacionamento de Braide com a imprensa. Em todo o Brasil, concessões de rádio e TV são distribuídas ao bel-prazer de poderosos. Os donos da mídia são políticos ou empresários ligados a eles.

Mas essa não é a questão.

Braide, como prefeito de São Luís, nunca quis proximidade com qualquer segmento da mídia. Nem com as ligadas a políticos, nem com a independente. Nem secretário de imprensa tinha.

Mas nem sempre foi assim.

O fenômeno Eduardo Braide é fruto de um debate de televisão.

É preciso voltar a 2016. Naquele ano, Braide participou de um debate na TV Guará, emissora de pouquíssimo alcance, em uma época em que as plataformas de streaming e as redes sociais ainda não estavam tão presentes na vida das pessoas como hoje.

Ali, conseguiu fazer um contraponto aos candidatos favoritos da época, Eliziane Gama e Wellington do Curso. A eleição era pela Prefeitura de São Luís, na disputa pela reeleição de Edivaldo Holanda Jr.

Braide entendeu a importância daquele espaço.

Naquele mesmo ano, chegou a entrar na Justiça para participar do debate da TV Difusora. A emissora, que tinha proximidade com Edivaldo à época, cancelou o debate diante da impossibilidade de incluir mais um participante sem desconfigurar o formato previsto.

Braide patinava nas pesquisas eleitorais.

Foi em outra televisão, pertencente a um poderoso grupo político do Maranhão, que ele ficou conhecido em toda São Luís: a TV Mirante, afiliada da Globo e pertencente ao Grupo Mirante, da família Sarney.

A regra dizia que participaria do debate quem estivesse em partido com representação no Congresso ou tivesse 5% na última pesquisa realizada pela emissora.

Uma manobra, dentro da margem de erro da pesquisa, colocou Braide no palco da Globo no Maranhão.

E aquele debate mudou a eleição.

Braide saiu da lanterna das pesquisas para o segundo turno contra Edivaldo Holanda. Acabou derrotado, mas saiu daquela eleição como uma nova força política na capital maranhense.

O debate, portanto, não foi um detalhe na trajetória de Eduardo Braide. Foi determinante para transformar um candidato que patinava nas pesquisas em uma força política em São Luís.

Naquela época, Braide precisava do debate.

Hoje, precisa explicar por que não precisa dele.

Braide tem medo de ter um novo fenômeno nessas eleições? O que mudou nesses dez anos? Braide não é mais o mesmo?

A diferença é uma: o Braide de 2016 não tinha nenhuma conta para prestar. Somente promessas. Era um franco-atirador que vinha de um mandato mediano na Assembleia Legislativa.

Agora é diferente.

Braide tem seis anos à frente da Prefeitura de São Luís. Segundo levantamento do g1, cumpriu apenas 36% das promessas feitas para o primeiro mandato.

E vem de uma gestão questionada por seus adversários.

Existem casos recentes que merecem ser respondidos em debates como o da TV Band: Lei de Zoneamento não aprovada, Passe Livre estudantil não implementado, Hospital Veterinário inoperante e Hospital da Criança no meio de um furacão de denúncias.

E há aquilo que, desde 2016, ele prometia resolver: o transporte público de São Luís.

Todas essas questões foram cortinadas sob uma rede social pessoal turbinada com dinheiro público, transformando Braide em um herói. A maquiagem da gestão foi o asfalto.

E isso tudo merece o contraditório.

Porque existe uma diferença fundamental entre apresentar realizações nas próprias redes sociais e responder, ao vivo, a perguntas que não foram escolhidas previamente.

O Braide de 2016 precisava desse espaço para questionar quem estava no poder.

O Braide de 2026 está no poder há seis anos.

Agora, é ele quem precisa responder.

Afinal, Braide promete — ou ameaça — fazer no Maranhão tudo que fez em São Luís.

Finalizo recorrendo ao que disse Eduardo Oinegue em editorial na TV Band:

“O político que foge dos debates trata o eleitor como um cidadão de segunda classe. De quem ele quer o voto, mas a quem ele não quer prestar contas. Quer governar o estado, mas se recusa a perder tempo explicando o que fazer — ou o que fez, aspas minhas — em um ambiente marcado pelo contraditório.”

 

Editorial de Acarta Politica 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Ajude o Blog do Sidnei Costa

Faça um Pix de qualquer valor e contribua para manter nosso trabalho. Clique no botão abaixo para copiar a chave Pix.

Chave Pix: 72412763372
Publicidade