
A pergunta parece simples, mas talvez seja uma das mais importantes para entender o tamanho do desafio de Eliziane Gama na tentativa de conquistar mais um mandato no Senado.
Porque, se hoje a senadora segura na barba de Lula para tentar uma difícil reeleição, existe um passado político que não desaparece simplesmente com uma ficha de filiação ao PT.
E o eleitor de Lula conhece esse passado.
Em 2016, quando Dilma Rousseff enfrentava o processo de impeachment, Eliziane Gama estava do outro lado.
Não foi uma posição discreta.
Eliziane integrou a comissão especial do impeachment e defendeu publicamente o afastamento da então presidente. Dias antes da votação, chegou a afirmar na tribuna da Câmara que a aprovação do impeachment já estava clara.
E votou a favor.
Passados dez anos, o cenário é quase o inverso.
Hoje, Eliziane precisa justamente do principal líder político daquele campo que ajudou a derrotar em 2016.
Luiz Inácio Lula da Silva.
É verdade que essa aproximação não começou ontem. Eliziane apoiou Lula em 2022, aproximou-se do governo e, nos últimos anos, tornou-se uma importante aliada do presidente no Senado.
Mas política também é sobrevivência.
E essa movimentação teve um custo.
Eliziane construiu sua trajetória política com forte identificação com o segmento evangélico. Só que sua aproximação com Lula e com a esquerda provocou reações dentro desse próprio campo.
Em 2022, por exemplo, a Convenção Estadual das Igrejas Evangélicas Assembleia de Deus no Maranhão chegou a divulgar uma nota de repúdio contra a senadora após seu apoio a Lula.
Ou seja: enquanto se aproximava de um novo campo político, Eliziane também começava a criar dificuldades justamente dentro de uma base que historicamente ajudou a construir sua carreira.
Agora o movimento ficou ainda mais evidente.
Até recentemente, Eliziane estava no PSD de Gilberto Kassab.
O mesmo PSD que tomou outro rumo na disputa presidencial e passou a ter Ronaldo Caiado, adversário histórico de Lula, como seu nome para o Palácio do Planalto.
Eliziane não ficou para assistir.
Saiu do PSD e pulou para dentro do PT.
É uma mudança politicamente compreensível para quem precisa disputar uma eleição difícil no Maranhão e tem no presidente da República um dos seus maiores — talvez o maior — fiadores eleitorais.
Lula, aliás, já fez a parte dele. Antes mesmo dessa mudança partidária, chegou a tratar Eliziane publicamente como “minha candidata”. Mas talvez esteja justamente aí o problema. Uma coisa é Lula escolher Eliziane. Outra é o eleitor de Lula fazer a mesma escolha.
Porque Eliziane parece viver hoje uma espécie de transição eleitoral.
Ao se aproximar cada vez mais do lulismo, distanciou-se de setores de uma base evangélica que durante muitos anos foi fundamental para sua construção política.
Agora precisa encontrar votos em outro lugar.
E está buscando justamente um eleitor que também tem memória. O eleitor que acompanhou o impeachment de Dilma. O eleitor que viu o PT passar anos tratando aquele processo como uma das maiores rupturas políticas de sua história recente.
O eleitor que não conheceu Eliziane como uma liderança histórica da esquerda maranhense. E que agora precisa enxergá-la não apenas como aliada de Lula, mas como candidata merecedora do seu próprio voto. Essa diferença é fundamental.
Resta saber: os eleitores de Lula se sentem igualmente confortáveis em votar em Eliziane?

